DESLIGAMENTO – DATA, CUSTO E PASSIVO TRABALHISTA
- Mauricio Bavose

- 19 de jan.
- 7 min de leitura
Atualizado: 20 de jan.

As empresas precisam saber que a gestão do calendário é fundamental. Assim, vamos falar dos riscos, dos prováveis passivos trabalhistas, tipos de desligamento, das datas de desligamento, justificativas para desligar, entre outras.
TRIAGEM DE RISCO
Mapa de impedimentos / estabilidades – Verificar se o empregado está em alguma situação que aumenta muito risco
Gestante (estabilidade típica);
Acidentado/doença ocupacional;
CIPA** (titular/suplente, dependendo do caso);
Dirigente sindical;
Pré-aposentadoria (muito comum em CCT);
Aviso de férias, férias já marcadas, afastamentos etc.
Se houver estabilidade, não é “proibido” em todos os casos, mas quase sempre exige estratégia específica e jurídico
PASSIVOS TRABALHISTAS PROVÁVEIS (por pessoa / por área)
Pontue risco por temas
Horas extras / banco de horas** (saldo, validade, controles);
Intervalo intrajornada e jornadas “quebradas”;
Adicional noturno / periculosidade / insalubridade;
Comissões/variáveis (média, habitualidade, reflexos);
Equiparação salarial / desvio de função;
Assédio / clima (ex-empregado litigante);
Documentação fraca (ponto, recibos, políticas).
DEFINIR O “O MODELO DE DESLIGAMENTO” (ESCOLHA DO CAMINHO CERTO)
Não é preciso usar um único formato. Podemos ter 3 situações:
Desligamento sem justa causa (padrão)
Quando a empresa quer encerrar rapidamente e assumir o custo total (aviso, multa de 40% FGTS etc.).
Prós: simples, previsível;
Contras: maior desembolso.
Acordo entre as partes (CLT art. 484-A)
Pode ser bom para alinhar interesses e reduzir desembolso, sem “prejudicar” o empregado (se bem-negociado).
Regras gerais do 484-A:
Metade do aviso prévio (se indenizado);
Multa FGTS de 20% (em vez de 40%);
Saque do FGTS limitado (até 80%);
Sem acesso ao seguro-desemprego
Uso recomendado quando: empregado quer sair, tem proposta, ou busca flexibilidade; empresa quer reduzir caixa e litígio
PDV/PDI (Programa de Demissão Voluntária/Incentivada)
Ideal para cortes maiores ou sensíveis (reduz ruído sindical e padroniza).
Boas práticas:
Regras claras e objetivas;
Elegibilidade e prazo de adesão;
Incentivo financeiro/benefícios (parcelamento, manutenção de plano, curso recolocação etc.);
Negociação com sindicato (quando aplicável) e documentação robusta
PLANEJAMENTO PELO CALENDÁRIO (PARA REDUZIR CUSTO E RUÍDO)
Aqui o “olhar o calendário” faz diferença real:
Fechamento de folha e prazos
Planeje desligamentos logo após o fechamento da folha (evita retrabalho e ajustes);
Respeite prazo legal de pagamento de verbas rescisórias (em regra até 10 dias do término do contrato);
Evite datas com muita operação crítica (picos, auditorias, fechamento contábil).
Férias, 13º e variáveis
Se possível, evite desligar no meio de períodos que aumentam complexidade (ex.: logo após pagamento de bônus/PLR sem regras claras);
Planeje para não criar dúvidas sobre médias de variáveis (comissão, HE, adicionais).
Datas sindicais e convenções
Verifique data-base da categoria e campanhas salariais;
Evite desligamentos massivos em período de negociação tensa sem comunicação/gestão sindical.
Gestão sindical e de comunicação (reduz litígio e ruído operacional)
Antes (D-15 a D-5)
Se for volume relevante, trate como projeto: jurídico + RH + finanças + líderes + comunicação;
Faça “pre-brief” com liderança (mensagem única, sem improviso);
Prepare perguntas e respostas para: motivo, critérios, benefícios, prazos, como acessar documentos.
No dia (D-Day)
Comunicação individual, respeitosa e objetiva;
Entrega de guia/documentos e explicação simples do fluxo (prazo de pagamento, FGTS, ASO, etc.);
Cuidado com linguagem: evitar admissão de culpa (“você fazia hora extra sem pagar…”) e evitar termos discriminatórios.
Depois (D+1 a D+30)
Canal para dúvidas (reduz ação por ruído);
Auditoria de pendências: devolução de ativos, acessos, e documentação.
Adequação ao fluxo de caixa (sem “empurrar” risco)
A forma correta de adequar ao caixa é planejar ondas e estruturar incentivos, não atrasar verba (atraso vira multa/juros/ação).
Modelo de “ondas” (exemplo attachável ao financeiro)
Onda 1 (semana 1): desligamentos de baixo risco e baixo impacto operacional;
Onda 2 (semana 3)**: desligamentos médios + acordos 484-A;
Onda 3 (semana 5)**: PDV/PDI (se aplicável) e casos mais complexos com jurídico.
Parcelamento: quando é possível
Parcelar verbas rescisórias é, em geral, arriscado (não é “padrão CLT”). Se for indispensável:
Faça apenas com instrumento formal, anuência expressa, e avaliação jurídica (e ainda assim pode haver risco de questionamento).
O caminho menos arriscado para caixa costuma ser:
CLT484-A (reduz custo estrutural);
PDV/PDI com incentivo eventualmente parcelado como verba indenizatória extra (bem desenhada);
Ajustar timing por ondas sem estourar prazo legal.
Planilha de provisão (estrutura)
Para cada empregado, estimar:
saldo de salário;
aviso (trabalhado ou indenizado);
13º proporcional;
férias vencidas + 1/3;
férias proporcionais + 1/3;
médias (HE, adicionais, comissões);
multa FGTS (40% ou 20% no 484-A);
custos indiretos (multa CCT, benefício, honorários, contingência)
E fechar com:
data de desligamento;
data limite de pagamento;
data de impacto no caixa
Controles para reduzir passivo (o “kit” anticontencioso)
ASO demissional (quando exigido);
Termo de rescisão, guias e comprovantes;
Extrato/depósitos FGTS conciliados;
Espelho de ponto e saldos (banco de horas) revisados;
Recibos e políticas (EPI, adicional, comissões);
Carta de recomendação / apoio de recolocação (opcional, mas reduz hostilidade);
Checklist de devolução de bens e acessos (sem retenção abusiva de valores).
Critérios de seleção (para ser justo e defensável) – Justificativa do desligamento
Defina critérios antes e documente:
Performance histórica (com avaliações);
Redundância de função / reorganização;
Competências críticas vs. Substituíveis;
Custo total vs. benefício operacional;
Conduta (se houver documentação)
Evite: critérios que possam parecer discriminação (idade, saúde, gravidez, condição familiar etc.).
Quando NÃO usar aviso trabalhado:
Funções com acesso crítico/sistemas sensíveis;
Risco de sabotagem/baixa produtividade;
Clima muito deteriorado.
Voltando ao calendário
Desligamento na sexta-feira: por que pode aumentar ruído (e quando faz sentido)
Ruído operacional
Escala de suporte: sexta é comum ter “fila” de pendências; desligar no fim do expediente pode gerar buraco de handover (principalmente em administrativo);
Acessos e compliance: se você corta acesso na hora, pode travar demandas; se mantém acesso até segunda, aumenta risco;
Gestão de ativos (notebook/chaves/crachá): logística piora porque TI/Facilities já está reduzindo ritmo.
Ruído sindical e narrativo
Sexta tende a gerar percepção de “passar o problema para o fim de semana” (sem canal de suporte), o que alimenta narrativa e aumenta chance de o empregado procurar sindicato/advogado imediatamente;
Se o volume é grande, a sexta vira “o dia do corte”, com mais chance de aglomeração e mobilização.
Quando sexta pode ser a melhor escolha
Quando a operação consegue fazer desativação de acesso imediata e há handover bem planejado;
Quando você quer reduzir exposição do desligado ao ambiente (menos tempo de circulação interna);
Para funções com risco de segurança da informação, às vezes é preferível encerrar perto do fim do expediente com tudo pronto (mas com plantão de RH/DP no fim do dia e no dia seguinte útil).
Mitigação se usar sexta: deixar canal de atendimento ativo (telefone/e-mail/WhatsApp corporativo), checklist de documentos, e agendar “tira-dúvidas” para a segunda.
Segunda-feira: DSR e outros efeitos (o que é fato e o que é mito)
“Na segunda a empresa tem de pagar DSR”
Aqui precisa separar cenários:
Empregado mensalista (muito comum em administrativo): o descanso semanal remunerado (DSR) já está embutido no salário mensal. A data de desligamento na segunda, por si só, normalmente não “cria um DSR extra” — o que muda é o saldo de salário pelos dias trabalhados no mês;
Outros casos, como por exemplo o empregado horista / com remuneração variável (muito comum em docência e em funções com HE/comissões): o DSR pode aparecer como reflexo das horas/aulas/variáveis no período. Nesse caso, a data pode sim afetar qual período entra na apuração e se há reflexos a calcular.
Em resumo: segunda não é automaticamente mais cara “por causa do DSR” em todo caso; mas em categorias com pagamento por hora/aula e adicionais com reflexos, a apuração de DSR/reflexos fica mais sensível.
Operação e clima
Segunda tende a ser melhor para logística (DP/TI/gestores em pleno funcionamento);
O empregado sai com acesso imediato a suporte e consegue resolver documentação sem ficar “no limbo” do fim de semana — isso reduz ruído e chance de conflito.
Avos proporcionais de férias e 13º: como a data influencia - Regra prática (sem entrar em exceções)
Tanto férias proporcionais quanto 13º proporcional são calculados em “avos” por mês conforme regras específicas (e há discussões sobre o que conta como mês cheio em algumas situações);
Na prática de DP, o que mais pesa não é “segunda vs sexta”, mas sim se o término do contrato cai:
no começo do mês (poucos dias → pode não “virar” mais um avo), ou
depois de um marco de dias trabalhados no mês (pode “virar” um avo adicional em alguns critérios adotados/entendidos).
Vale atenção às CCTs, pois algumas convenções tratam critérios de pagamento e adicionais e podem impactar médias/reflexos, o que indiretamente muda “o custo do mês” de férias/13º.
Outras coisas importantes que a data mexe (muitas vezes esquecidas) - Prazo legal de pagamento da rescisão (risco alto)
O que costuma “doer” mais do que DSR/avos é: estourar prazo de pagamento e entrar em multa/juros e narrativa sindical;
Se você escolhe datas que caem perto de feriados/fins de semana e o DP/Tesouraria não dá conta, o risco explode;
Então, a melhor data é a que garante capacidade de pagamento e entrega documental dentro do prazo.
Benefícios e cortes (VR/VA, plano de saúde, auxílios)
A data define:
Até quando o empregado tem direito ao benefício do mês;
Se haverá necessidade de cobrança proporcional (que gera conflito);
Quando cancela plano (e isso, em massa, gera ruído enorme).
Em programas grandes, muitas empresas adotam regra “pró-empregado” para reduzir atrito: manter benefício até o fim do mês (custo controlado e reduz litígio), quando viável.
Mês com feriados / pontes
Feriado no meio:
Bagunça agenda de exames demissionais, assinatura, entrega de documentos;
Aumenta chance de atraso (e multa);
Aumenta “ruído de abandono” (pessoa sem suporte).
Preferir desligamentos em terças/ quartas
Melhor equilíbrio: evita “sexta do corte” e evita começar semana já com desligamento em massa;
Dá tempo de corrigir qualquer erro ainda na semana.
Comunicação e término não precisam ser no mesmo dia
Você pode comunicar em um dia (ex.: terça) e definir término conforme aviso trabalhado/indenizado e logística.
Evitar:
Sexta-feira em massa (por narrativa e falta de suporte no fim de semana);
Véspera de feriado e semanas curtas;
Dia imediatamente anterior ao fechamento da folha (aumenta retrabalho e erro).
Criar “janelas fixas” por onda
Ex.: toda onda comunica na terça/quarta e encerra contratos em datas padrão (reduz erro de cálculo e de prazo).
By MauBavфsedp




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